05 February 2006

Chegando à Luanda

Crônica 1 - 01 de agosto de 2005 - Este inusitado aconteceu, nunca esperei estar trabalhando tão longe de casa. De repente o outro lado do mundo ficou tão perto e … estou agora vivendo nele. Deixar tudo foi muito difícil, procurei não pensar muito, pois assim não iria. Cada despedida era uma faca rasgando. Passei por todas e elas foram ficando progressivamente mais difíceis, até a última que foi com Matheus, meu filho… Esta nem é muito bom falar, apesar dele ter sido forte e ajudado muito.

Como tudo caminhou com uma determinação contundente, só me restou reconhecer o desígnio de Deus por traz de tudo e encarar toda esta revolução nas nossas vidas com a coragem dos que esperam dias melhores.

Não consegui dormir na viagem à noite devido ao meu estado de excitação e, como eu estava no corredor, também graças a truculência das aeromoças angolanas que não conseguiam passar por mim sem bater, revelando um pouco de despreparo em suas funções. Não se enganem, o avião da TAAG – Transportes Aéreos Angolanos não tinha nada de maltrapilho. Era um 747 novinho (aquele da corcunda na cabeça). Esta foi a primeira surpresa com que me deparei aqui nas terras africanas.

Ao aterrissar verifiquei que por enquanto não havia surpresas. Luanda é uma cidade que até aqui, não inspira muitas admirações, pelo contrário. A cidade não tem uma arquitectura bonita, os prédios são colados um ao outro, sem afastamento lateral. Existe uma onda de poeira no ar, pois as edificações e os veículos ficam impregnados de uma cor marrom. Há uma névoa no horizonte que mal deixa se ver o céu e o Sol. É a estação das chuvas. Isto vai permanecer até o dia 15 de Agosto (tem data marcada para acabar). A temperatura é bem agradável, em torno de 23º.

A energia vacila frequentemente, sendo necessária a utilização de geradores para mantê-la. Com isto os administradores municipais não se animam em instalar semáforos, já que eles não funcionam. Desta forma existe um caos total no trânsito, fazendo com que, para qualquer locomoção, se avalie se é realmente necessária. Ainda não se partiu para uma solução usando células solares, embora projetos de implantação já tenham sido desenvolvidos.

As surpresas no trânsito não ficaram só nisto. Angola não tem indústria automobilística, e a diversidade de marcas e tipos dos veículos são imensas devido a importação. Só que nesta diversidade, muito mais da metade dos veículos são de marcas e tipos dos mais caros que já vi. Mercedes, Mazda, BMW, Toyota, Volvo, de tipos que não existem no Brasil, provando que existe gente com muito, mais muito dinheiro. O mais interessante é que volta e meia encontramos estacionados veículos semi-novos empoeirados, que presumimos, estão parados por falta de peças. Este problema chega a tal ponto que as ruas ficam com dificuldades de vagas para estacionamento.

Ainda não tive condições de fazer nenhum juízo do povo angolano. A princípio o que demonstram é um distanciamento calculado. Fomos alertados na empresa para o dissimulamento dos habitantes, devido as dificuldades que estes já passaram. Nos primórdios foram escravizados por irmãos vizinhos, depois foram submetidos a imperadores ditadores que pouco mudaram sua condição. Agora, depois da guerra, se começa a vislumbrar algo como um estado de direito, mas a população ainda não se libertou da opressão e não se sabe se isto vai ocorrer. Por isto se acostumaram a ser dissimulados e a espionarem muito (de verdade, telefones grampeados são comuns!!!).

As minhas condições são excelentes, o apartamento é de primeiro mundo, apesar de fora estar parecendo um cortiço. As condições de trabalho não ficam a trás. Só o que aflige é a saudade.

11 comments:

Anonymous said...

Este é um teste de comentário

Anonymous said...

Oi Fernando,
Segue meu e-mail para receber notícias suas.

Ana Lúcia Giglio
agiglio@terra.com.br

Kaísa said...

Adorei!

sumere said...

Oi Fernando,

Somente vc,pra me surpreender com tantas informações desse tipo, nem o gordo que estar ai a mais tempo, me proporcionou tal viagem. Foram maravilhosos os relatos, de primeirissima qualidade e bastante enriquecedor. São fatos que vais ter muito o que contar para os netos.KKKKK

Beijos - Sumere

Lusófona said...

Tenho um amigo que foi trabalhar algum tempo em Angola, e disse-me imensas coisas, mas só comecei a compreender depois que vim morar em Portugal.

Deborah said...

Você escreve muito bem! PARABÉNS!
Parecia estar em luanda ao ler seu relato. Deu até vontade de parar tudo e viajar...

Marlene :D said...

Olá td bem ?
Tenho um grande amigo q está em Angola a algum tempo recebo muitas fotos e comentarios dele sobre esse lugar,mas através de seu blog pude conhecer melhor td ai...se eu poudesse iria p/ ai meu sonho é poder trabalhar ai e ajudá-los de alguma forma esse povo tão sofrido.
q Deus possa Abençoar tds vcs
um grd abraço

Adriano Tromps said...

Olá Senho Fernando Melo,
Vi o seu blog na comunidade Brasileiros em Angola e vi que você é engenheiro. Eu sou arquiteto e estou aqui em Angola desde dezembro de 2007 trabalhando como arquiteto voluntário para a Igreja Católica, trabalho na área de projeto de escolas, postos de saúde, residências, igrejas e capelas. Gostaria de contar com sua ajuda e me colocar a disposição para o que precisares.
Sabemos que é um pouco difícil encontrar meios para desenvolver o nosso trabalho aqui (informação, fornecedores, serviços terceirizados, orçamentos, mão de obra, etc). Acho que seria muito bom trocarmos experiências e informação entre nós e outros colegas aqui em Angola.
Acho que vou fazer uma comunidade no orkut, "Arquitetos E Engenheiros em Angola", sem duvida vai ser muito bom.

Abraço

Elisa said...

Perfeito estava procurando textos,comentários sobre Angola e foi muito bom ler as suas experiências..Apesar ed etr ficado assustada com algumas coisas.Bom,meu nome é Elisa estarei também indo à trabalho para Angola só que ficarei em Luanda.

Vila do Gamek said...

Olá Fernando suas fotos são maravilhosas, eu morei em angola em 1989 até 1992 e apesar de tudo, amo aquele país, caso tenha fotos da Vila do Gamek em Luanda, foi onde morei, ficaria muito grato se pudesse me enviar.
Parabéns e obrigado pelo privilégio de poder rever um pouco deste país que amo.
fabioperazoli@hotmail.com
Fabio.

São said...

Adoro Luanda, a minha terra.
Gostaria que me enviasse fotos do bairro da Corimba,onde morei até 1975.
Muito obrigada.